POESIA
Mulher africana, nos trilhos de Lisboa
Tu, exilada do ventre da tua terra,
como tantas Marias de África,
vives agora em chão estrangeiro,
com um filho ao colo
e o mundo inteiro sobre os ombros.
Do suor que teima em cair da tua testa
nascem os frutos que alimentam o teu menino.
É por ele que madrugas,
é por ele que corres,
de carrinha em carrinha,
de táxi partilhado a metro apinhado,
como se o tempo fosse sempre escasso
e os sonhos, uma urgência calada.
Lisboa ri nos arraiais de Junho,
mas tu danças outra música —
a da sobrevivência.
Entre cheiros a sardinha e manjerico,
tu carregas o peso do silêncio,
da ausência, da esperança.
Quando hás de parar?
Quando hás de respirar fundo,
olhar o céu e dizer: também mereço a alegria?
Pois mesmo sendo Eva,
és filha do Criador.
E tens direito ao descanso,
ao riso,
à luz.
Que seja eu esse Adão que saiba dar-te descanso.
Que seja eu a brisa que acalma a tua alma
fadigada pela brutalidade da vida.
Que em mim encontres o amparo e o abrigo
que sempre procuraste em tantos Adões,
mas que em cada entrega,
só o sabor amargo colheste.
Por : Paulo Muhongo
12 Junho 2026


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