POLÍTICA

Mundial 2026: polémicas com vistos e controlos fronteiriços levantam críticas à organização da FIF

A menos de um ano da fase decisiva do Mundial de 2026, organizado pelos Estados Unidos, Canadá e México, uma série de incidentes relacionados com vistos, controlos fronteiriços e restrições de entrada nos Estados Unidos está a gerar forte controvérsia e a lançar dúvidas sobre a capacidade da FIFA de garantir igualdade de tratamento a todas as seleções, árbitros e adeptos envolvidos na competição.

Por : Luaty Beirão

12 Junho 2026

Nas últimas 48 horas, multiplicaram-se relatos de dificuldades enfrentadas por jogadores, árbitros, dirigentes e adeptos provenientes de diferentes partes do mundo.

O avançado suíço Breel Embolo viu o seu visto ser colocado sob revisão, situação que o impediu de se juntar à seleção suíça dentro dos prazos previstos. Apenas vários dias depois conseguiu finalmente entrar nos Estados Unidos para integrar a equipa.

Também a seleção do Iraque enfrentou problemas. O avançado Aymen Hussein foi retido durante quase sete horas para interrogatório à chegada aos Estados Unidos, numa situação que provocou indignação entre os responsáveis da federação iraquiana.

Os problemas atingiram igualmente a seleção do Irão. A equipa passou vários dias a lidar com procedimentos burocráticos no Consulado dos Estados Unidos na Turquia. Além disso, as autoridades norte-americanas apenas autorizaram a entrada da delegação em dias de jogo. A situação tornou-se ainda mais grave quando quinze membros da comitiva iraniana tiveram os seus pedidos de visto recusados.

Outro caso que gerou grande repercussão foi o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito pela Confederação Africana de Futebol (CAF) como o Melhor Árbitro Africano de 2025. Apesar de viajar com passaporte diplomático, foi impedido de entrar nos Estados Unidos e enviado de volta ao país de origem. A FIFA confirmou posteriormente que o árbitro não poderá participar no torneio.

A seleção da África do Sul também sofreu atrasos significativos na sua preparação. Parte da delegação não recebeu os vistos necessários a tempo, obrigando a equipa a chegar aos Estados Unidos muito mais tarde do que estava inicialmente planeado.

Entretanto, membros da equipa técnica da seleção do Senegal denunciaram tratamentos considerados humilhantes durante os procedimentos de controlo fronteiriço. Segundo relatos, vários elementos foram obrigados a retirar os sapatos e submetidos a revistas prolongadas, levando alguns responsáveis a acusar as autoridades de comportamentos discriminatórios e racistas.

A situação ganhou ainda mais visibilidade quando imagens da seleção do Uzbequistão a ser inspecionada com cães farejadores de explosivos se tornaram virais nas redes sociais e na imprensa internacional.

Nem os adeptos escaparam às dificuldades. Alguns apoiantes da Escócia, que teoricamente poderiam entrar nos Estados Unidos sem visto através do programa ESTA, viram as suas autorizações de viagem revogadas poucos dias antes da partida.

Além disso, numerosos adeptos de várias nacionalidades relatam ter perdido milhares de euros após a rejeição dos seus pedidos de visto, apesar de já terem adquirido bilhetes para os jogos, reservado hotéis e comprado viagens aéreas.

Um problema para a FIFA

Embora os controlos migratórios sejam da responsabilidade das autoridades norte-americanas, muitos observadores consideram que a FIFA subestimou os riscos associados à realização do maior evento futebolístico do planeta num contexto de políticas migratórias rigorosas.

O organismo que governa o futebol mundial prometeu repetidamente que todas as seleções, árbitros e adeptos seriam recebidos em condições de igualdade e sem obstáculos desnecessários. Contudo, os acontecimentos recentes mostram uma realidade bastante diferente.

As dificuldades enfrentadas por países africanos, asiáticos e do Médio Oriente levantam questões sobre a universalidade do futebol e sobre a capacidade da FIFA de proteger todos os participantes de forma equitativa.

Se estes problemas persistirem ao longo do torneio, o Mundial de 2026 corre o risco de ficar marcado não apenas pelo espetáculo dentro das quatro linhas, mas também por uma série de polémicas relacionadas com imigração, discriminação e restrições de entrada.

Para muitos críticos, os acontecimentos dos últimos dias representam um sério aviso para a FIFA: a organização de um Mundial não se resume à construção de estádios ou à venda de bilhetes. Exige também garantir que todos os participantes possam chegar ao torneio em condições justas e dignas.

E, nesse aspeto, os primeiros sinais estão longe de ser tranquilizadores.